ÚLTIMAS NOTÍCIAS / Objetivo de prova pioneira do Geneplus-embrapa foi avaliar a máxima eficiência de consumo em relação ao ganho de peso

A vez do boi que come menos

Quinta-feira, 09 de Fevereiro de 2017

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Nem peso final, nem acabamento ou ganho médio diário. A palavra de ordem foi eficiência. Pela primeira vez, a Embrapa, por intermédio do Programa Geneplus-Embrapa de Melhoramento Genético, realizou uma prova de avaliação de desempenho para animais Nelore, na qual o mais importante na classificação foi o menor consumo possível para atingir a estrutura obtida.

Ou seja, o estudo girou em torno da eficiência alimentar. Para isso, o mais importante indicativo de classificação na prova foi o consumo alimentar residual (CAR), que recebeu peso de 40%. Os 60% restantes foram distribuídos entre ganho médio diário (GMD, com 15%); perímetro escrotal (PE, com 15%); área de olho de lombo aos 450 dias de idade (AOL 450, com 15%); espessura de gordura subcutânea (EGS, com 9%), e espessura de gordura subcutânea na picanha (EGP 8, com 6%). O peso final (PF) constou da planilha de classificação apenas como informação complementar para os pecuaristas e não influenciou no resultado.

Participaram 83 animais de nove produtores dos Estados de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Paraná e também do rebanho Nelore PO da Embrapa. A prova foi concentrada no confinamento da Embrapa Gado de Corte, em Campo Grande, MS. Os touros ficaram 21 dias em adaptação (de 25 de abril a 15 de maio) e mais 56 dias em coleta de medidas de consumo e peso (de 16 de maio a 11 de julho). Os resultados foram apresentados por pesquisadores do 1º Dia de Campo de Melhoramento de Gado de Corte com a Embrapa em 12 de julho. Para integrar a primeira prova, os animais teriam de ser originários de rebanhos de produtores participantes do Programa Geneplus-Embrapa. Além disso, levou-se em conta a homogeneidade na idade e o destaque em avaliações convencionais anteriores.

Os pesquisadores envolvidos consideram este trabalho o início de um processo em larga escala, que prevê avaliar cerca de 500 animais/ano. A ideia é colher um grande volume de dados fenotípicos, que serão a base para o processo de seleção genômica. "Neste momento, a grande riqueza é o fenótipo; sem ele não posso saber o que faz um determinado gene", observa o gerente do Geneplus-Embrapa, Luiz Otávio Campos Silva.

A avaliação classificou os animais em elite plus, elite, superior plus, superior, comercial plus e comercial. O grande campeão foi o touro GRIB3908 (Rausor x Backup) da Fazenda Santa Nice, de Amaporã, PR, de propriedade dos pecuaristas Antônio e Marcelo Grisi. Seu desempenho foi CAR (-1,070); GMD (1,645); PF (578,2); PE (36,66); AOL450 (78,2); EGS (5,20) e EGP8 (6,94).

Automação

As limitações para uma avaliação de desempenho com base na eficiência alimentar sempre passaram pelas dificuldades técnicas e estruturais, sobretudo em como medir o que cada animal consumiu. Para isso, o Geneplus-Embrapa montou um aparato tecnológico no confinamento da Embrapa que envolveu, dentre outras coisas, os cochos inteligentes (eletrônicos) e circuitos integrados responsáveis pela leitura individual do consumo de ração e água. Além disso, uma plataforma com sensores foi instalada no acesso aos bebedouros. Os equipamentos mediram o consumo diário de alimentos, a frequência individual de visitas e o tempo de permanência no cocho, além do peso nos momentos em que fosse beber água.

O conteúdo nos cochos foi outra preocupação. "A dieta foi elaborada para melhorar a ingestão de matéria seca, aumentar o ganho médio diário e obter melhor qualidade de carcaça com maior conversão de energia", explica o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Rodrigo da Costa Gomes. A adoção do CAR como principal variável da prova permite mensurar o espaço que eventualmente surge na ingestão de alimento, além ou aquém do necessário para o animal se manter e crescer. Ele é calculado pela diferença entre o consumo verdadeiro e a quantidade de comida que o animal deveria ingerir com base em seu peso vivo médio durante a avaliação e na velocidade de ganho de peso. Sendo assim, a prova estabelece para este indicativo que os animais mais eficientes têm um CAR negativo.

Novidade

Os resultados e a classificação foram divulgados ao fim da programação do evento, mas, ao longo de todo o dia, pecuaristas, técnicos e convidados puderam tirar dúvidas pessoalmente com o gerente do programa, Luiz Otávio, sobre critérios e procedimentos adotados. No fim do dia, era clara a sensação de que um passo importante estava sendo dado para enriquecer o melhoramento genético da pecuária brasileira. "Eu gostei muito. O CAR é uma característica que não se vê ao observar fisicamente um animal. É mais uma ferramenta para melhorar nossa genética. Com o tempo, à medida que novos trabalhos forem sendo executados, passaremos a ter uma referência efetiva que servirá como parâmetro nas avaliações com foco em eficiência alimentar", avalia o proprietário da Fazenda Cachoeirão, Nedson Rodrigues, em Bandeirantes, MS.

Dos dois animais que ele colocou na prova, o mais bem classificado foi FCCH0495, em 15º no ranking geral e em 1º na categoria Elite. A 2ª Prova de Avaliação de Desempenho do Nelore do Programa Geneplus-Embrapa teve início ainda em julho e termina em setembro. Está reunindo139 animais de 12 produtores (inclusive de rebanho da Embrapa) de quatro Estados (MS, MT, TO e PR) também na unidade Gado de Corte, em Campo Grande.

Antes de apresentar o resultado da prova, o gerente do Geneplus-Embrapa levou os convidados do dia de campo para conhecer o rebanho do programa, na Fazenda Modelo da Embrapa, em Terenos, MS (a 28 km de Campo Grande). Atualmente conta com 130 matrizes e novilhas de reposição. No ano passado foram usados 26 touros e mais três de repasse (IATF e monta). "Este rebanho foi criado em 1982 e 'recriado' em 1990, quando retornei do doutorado. Ele tem como objetivo validar técnicas preconizadas na época pela Embrapa e hoje pelo Geneplus-Embrapa", explica Luiz Otávio.

Maxibife

De volta ao auditório da Embrapa, em Campo Grande, ele fez a apresentação de um dos maiores projetos de integração de conhecimento capitaneados pela Embrapa. Trata-se do arranjo Maxibife, que reúne 27 organizações (dez unidades da Embrapa, além de universidades e empresas de desenvolvimento pecuário) e pelo menos 60 pesquisadores pelo País. O arranjo é composto por seis projetos: Maxiplat (plataforma de dados com todas as raças envolvidas); Maxidep (desenvolvimento de uma metodologia para gerar diferenças esperadas de progênies); Maxigen (conjugação molecular quantitativa para obtenção de meios de seleção genômica); Maxicruza (estruturações de métodos de cruzamento); Maxisel (estruturação de métodos de seleção) e Maxitt (desenvolvimento de meios e estruturas para transferência de tecnologia). Este amplo circuito de informações compartilhadas reúne 7.200 matrizes Geneplus de 12 fazendas distribuídas em cinco Estados: MS (5), MT (4), PR (1), TO (1) e PA (1).

"A prova de avaliação de desempenho para Nelore é uma das ações do Maxisel. Os dados serão utilizados para a geração de DEPs para características como eficiência alimentar e qualidade de carcaça no projeto Maxidep e DEPs genômicas no projeto Maxigen", diz o pesquisador Rodrigo da Costa Gomes. 

Um fruto da parceria público-privada

A Embrapa e a Geneplus Consultoria Agropecuária, sediada em Campo Grande, MS, se uniram, em 1996, para desenvolver um novo produto, nos moldes da parceria público-privada. A partir daí surgiu o Programa Geneplus-Embrapa, que coloca à disposição do criador brasileiro um serviço especializado de melhoramento genético animal. Tal união resolveu parte do principal problema que limita as ações das empresas públicas - caso da Embrapa: a falta de recursos. "A partir daí, foi possível a contratação de mão de obra e de serviços especializados para atuação a campo, coisa que a Embrapa, por si só, não conseguiria", diz o pesquisador Antônio do Nascimento Ferreira Rosa, líder do Projeto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Gado de Corte (Maxitt) ligado às bases do Geneplus-Embrapa. O pesquisador lembra que alguns dos maiores articuladores para a estruturação do programa foram seus colegas Luiz Otávio Campos Silva, Paulo Roberto Costa Nobre e Kepler Euclides Filho.

Segundo ele, a prática da consultoria estabelece que o interessado remunere o serviço de acordo com o número de matrizes do rebanho, na ordem de 10% sobre o valor da arroba da vaca/ano. "Os recursos, divididos em três valores iguais, seguem três destinos: Tesouro Nacional, Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária e Ambiental (Fundapam), e o caixa do programa", diz o pesquisador. O trabalho é focado na avaliação de touros, matrizes e progênies para uso próprio dos pecuaristas, seja em rebanho comercial ou na produção de genética. Rosa lembra que, nestas duas décadas, o programa foi levado para 16 Estados brasileiros, somando 400 rebanhos e 3,5 milhões de bovinos, de pelo menos 12 raças.

*Matéria originalmente publicada na edição 430 da Revista DBO, em agosto de 2016.

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Fonte: Revista DBO

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